Opiniões

"Agora bem, qual é a diferença entre um dragão invisível, imaterial e flutuante que cospe um fogo que não queima e um dragão inexistente? Se não haver maneira de refutar minha opinião, se não haver nenhum experimento concebível válido contra ela, o que significa dizer que meu dragão existe? Sua incapacidade de invalidar minha hipótese não equivale absolutamente ademonstrar que é certa. As afirmações que não podem provar-se, as asseverações imunes à refutação são verdadeiramente inúteis, por muito valor que possam ter para inspiramos ou excitar nosso sentido de maravilha.[...]". Trecho de "O mundo Assombrado pelos Demônios", de Carl Sagan.

 

Se tem algo sem sentido é tentar igualar todas as opiniões num mesmo "nível". Você diz, por exemplo, que o método científico é mais confiável que maluco que bebe gasolina para se basear numa discussão sobre a existência de anjos verdes mono-asas com poderes de telecinese e alguém diz: 

- Ah! Mas as pessoas tem o direito de acreditar. E se um dia esse louco está certo e a ciência passa a concordar com ele? Então você julga ter a verdade absoluta? Então a sua racionalidade é superior a dele? A ciência não provou porque não pode provar que anjos verdes existem, certo? Então sua fé na ciência é igual a qualquer outra fé!

Um não-argumento que não diz nada de relevante. E isso é sempre dito no intuito de fazer parecer que as duas opniões aplicam igualmente a razão e partem de principios igualmente relevantes. Ou que a racionalidade e a razão são relativas; que a lógica é uma ferramenta descartável. As vezes até isso é dito no intuito de fazer você se sentir culpado por achar que está certo.

E desde quando tentar fazer você sentir alguma coisa para mudar de opinião é racional?

É claro que é possível que exista um mendigo com uma teoria mais precisa que a teoria da relatividade. Possível, não provável. Na prática? Acreditar nisso vai te fazer viver no mundo paralelo dos mendigos bêbados. Apesar disso, todo mundo tem o seu mendigo bêbado pessoal.

- E como se mede essa probabilidade?

Nesse caso, em termos precisos? Não sei. Mas na história da civilização esses "mendigos" são profundamente raros. Por outro lado, é visível os resultados que temos com os avanços científicos. Muito mais comuns do que incomuns...

O ponto não é o direito a opinião. O ponto é como ela foi formulada. No fim das contas, se você relativizar a opinião alheia assim, você vai chegar em uma discussão totalmente baseada em nada:

- E se existir um universo paralelo cheia de gatas que a ciência e nem nós ainda nunca descobrimos??????? A sua ciência não é capaz de detecta-lo. E aí?

E aí? E aí que tanto faz. O indetectável - em termos práticos - é indiferente do inexistente, já dizia Carl Sagan.

Qual sentido em discutir partindo do principio que nenhuma opinião tem o direito de ser mais certa que a outra? Partir do principio que o universo esconde uma realidade totalmente destoante do que os nossos sentidos e métodos puderam observar até agora? Se você costuma partir sempre para esse tipo de afirmação, talvez você esteja errado e não perceba isso.

 

February 9, 2011 at 12:21am | 0 Comments

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